sexta-feira, dezembro 15Saúde. Gestão e Consultoria

Uma dependência chamada Rivotril®

Uma dependência chamada Rivotril®
Classifique

Mais vendido do que o analgésico paracetamol ou a pomada Hipoglós, Rivotril® se tornou o remédio da moda. Mas, como um medicamento tarja preta, vendido apenas com retenção de receita, conseguiu estar entre os mais vendidos do Brasil?

Rivotril (clonazepan)
Rivotril (clonazepan)

Lançado no Brasil em 1973 para amenizar os efeitos da epilepsia, o Rivotril® passou a ser usado como tranquilizante por apresentar muitos benefícios em relação aos medicamentos usados na época. Em pouco tempo virou o queridinho das farmácias e já esteve em segundo lugar na lista dos remédios mais vendidos do país.

Não é por acaso que o medicamento virou febre entre executivos. Com uma vida agitada, é preciso esquecer os problemas de alguma maneira – e o Rivotril® promete a paz em forma de pílulas ou gotas. Afinal, a droga faz parte da classe dos benzodiazepínicos: são medicamentos que afetam a mente e o humor de quem os consome, deixando essas pessoas mais calmas.

Por essa qualidade, os “benzos” costumam ser indicados em casos de síndrome do pânico, ansiedade ou distúrbios do sono. Mas os médicos vão além: uma busca rápida na internet mostra que até mesmo dentistas e ginecologistas estão receitando o fármaco, que deveria ser de uso controlado. Em alguns casos, os próprios farmacêuticos encontram uma maneira de vender o medicamento para pacientes que não possuem a receita.

A dependência é justamente o maior risco do uso contínuo do remédio. A própria bula do medicamento alerta para esse fato, informando que “o uso de benzodiazepínicos pode levar ao desenvolvimento de dependência física e psíquica. O risco de dependência aumenta com a dose, tratamentos prolongados e em pacientes com história de abuso de álcool ou drogas”. Ou seja, a dependência pode ocorrer mesmo em pacientes que utilizam o remédio sob orientação médica e costuma ser acompanhada de crises de abstinência que podem se tornar verdadeiros pesadelos, incluindo psicoses, distúrbios do sono e ansiedade extrema. Parece irônico que as pessoas recorram a um remédio justamente para evitar este tipo de sintoma e vejam seus problemas agravados ao deixar o medicamento.

São executivos, trabalhadores, donas de casa e estudantes que parecem estar felizes e tranquilos com suas vidas, mas no fundo não conseguem lidar com seus problemas pessoais e recorrem ao fármaco como uma forma de libertação dos problemas do dia-a-dia. O Rivotril® acaba virando um grande amigo, responsável por diminuir os momentos de estresse e a pressão social enfrentada por estas pessoas.

Uma reportagem da revista Superinteressante aponta que o Brasil é o maior consumidor do mundo de clonazepan, o princípio ativo do Rivotril. Mas isso não quer dizer que nosso consumo de benzodiazepínicos seja maior que o de outros países. Pelo contrário: neste quesito, nós ainda nos encontramos na 51ª colocação. Como explicar a diferença? É simples, ao pensarmos que uma caixinha com 30 comprimidos responsáveis pela tranquilidade em drágeas custa menos de R$ 10 nas farmácias.

Será que não somos realmente capazes de lidar com nossos problemas de outra maneira e precisamos consumir a felicidade em formato de pílulas? É claro que não se podem ignorar as estatísticas: um em cada três moradores de regiões metropolitanas apresenta distúrbios decorrentes de ansiedade, enquanto cerca de 15% a 27% da população adulta apresenta problemas de sono.

O Rivotril pode ser a solução em casos mais extremos, mas um medicamento que apresenta altos índices de dependência e efeitos colaterais que incluem depressão, alucinações, amnésia, tentativas de suicídio e dificuldades para articular a fala, não deveria ser a primeira opção nestes casos. Com a popularização, o remédio hoje é usado como um elixir capaz de curar qualquer problema do dia-a-dia, mas não é o que deveria ocorrer. Quem sabe não aprenderíamos a lidar melhor com nossas próprias angústias caso precisássemos resolvê-las de outras maneiras? Ou isso, ou nos acostumamos a conviver com os efeitos colaterais de uma sociedade incapaz de resolver seus próprios dilemas.

É isso, afinal, que queremos?

Artigos relacionados

The following two tabs change content below.
Farmacêutica generalista, Pós Graduada em Cosmetologia Clínica pelo Instituto IPUPO e Pós Graduada em Farmacologia Clínica pela UCDB. Trabalhou durante 7 anos em farmácias (drogaria e manipulação) de onde carrega larga experiência no atendimento à clientes, dispensação de medicamentos, atenção farmacêutica e treinamento de colaboradores. Também lecionou durante 7 anos em cursos técnicos na área de saúde além de coordenação. Atualmente é coordenadora da Comissão Técnica no CRF/Piracicaba e Farmacêutica Clínica - Hospitalar no Hospital dos Fornecedores de Cana/Piracicaba.

Comentários

comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.