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Fosfoetanolamina: é possível um único remédio curar o câncer?

Fosfoetanolamina: é possível um único remédio curar o câncer?
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Quem pede pela liberação da Fosfoetanolamina sintética fabricada e distribuída na USP São Carlos acredita que a substância pode curar qualquer tipo de câncer. Mas é possível um único composto tratar mais de cem tipos de doenças?

Fosfoetanolamina
Fosfoetanolamina

Segundo oncologistas entrevistados, a resposta é não. “É errado chamar o câncer de doença porque na verdade é um conjunto de mais de cem doenças que são tratadas de forma específica”.

O que a ciência já conseguiu foi encontrar muitos tratamentos, alguns dos quais têm sucesso em curar alguns tipos de cânceres em estágios determinados.

Novas terapias são desenvolvidas de várias fontes e testadas primeiro em células tumorais crescidas em cultura, usando recipientes plásticos; depois em animais, geralmente camundongos; e só depois, se os resultados forem muito bons, em humanos. Somente quando os testes em humanos forem satisfatórios, é que o novo tratamento pode ser usado para os fins para o qual foi testado.

Muito está se noticiando sobre o uso da fosfoetanolamina, um composto bastante simples e de fácil obtenção, no tratamento do câncer.

Esta informação está baseada em estudos realizados por grupos da Universidade de São Paulo que mostraram que a fosfoetanolamina reduz o crescimento de células em cultura e também em alguns modelos animais.
No estudo a que tive acesso, a fosfoetanolamina foi tão potente quanto as terapias normalmente usadas para o tratamento de melanoma. Isto é um dado bem interessante, mas infelizmente não significa que ela cure o câncer, uma vez que os tratamentos aos quais foi comparada, taxol e etoposídeo, infelizmente não curam melanoma metastático em humanos.

Curar câncer em animais é mais fácil do que em humanos, muito provavelmente porque cânceres testados em animais são até mil vezes menores, e muito mais simples do que aqueles descobertos em humanos.

É muito importante ter claro que curar o câncer em modelos animais não significa que o mesmo tratamento vá curar a doença em todas as pessoas tratadas. É quase certo, aliás, que isto não vai acontecer. Mas, se um tratamento pode curar um câncer em um animal sem causar muita toxicidade, como é o caso da fosfoetanolamina, é um ótimo candidato para ser testado em humanos. Estes testes são feitos de forma regulamentada e envolvem vários níveis, desde os iniciais, de dose e toxicidade, até aqueles que englobam várias instituições, para verificar a eficácia do novo tratamento. Existem protocolos bem definidos e que precisam ser seguidos para que tratamentos possam ser aprovados. Um novo medicamento normalmente leva de 10 a 20 anos para ser desenvolvido, e custa na faixa dos bilhões de dólares.

É muito difícil se colocar na pele de alguém com câncer ou que tenha uma pessoa amada lutando contra a doença. Porém, a história mostrou que, sem testes clínicos bem controlados, é impossível dizer se um determinado tratamento que funcionou nas células e em modelos animais de laboratório, realmente vale a pena para pacientes com uma doença terminal. Por isso, é melhor lutar para que os testes em humanos possam ser feitos, para tratamentos promissores, do que exigir que uma universidade que fez uma pesquisa básica como a USP seja obrigada pela justiça a distribuir um medicamente que não foi nem testado e muito menos aprovado para tratar câncer em humanos.

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Farmacêutica generalista, Pós Graduada em Cosmetologia Clínica pelo Instituto IPUPO e Pós Graduada em Farmacologia Clínica pela UCDB. Trabalhou durante 7 anos em farmácias (drogaria e manipulação) de onde carrega larga experiência no atendimento à clientes, dispensação de medicamentos, atenção farmacêutica e treinamento de colaboradores. Também lecionou durante 7 anos em cursos técnicos na área de saúde além de coordenação. Atualmente é coordenadora da Comissão Técnica no CRF/Piracicaba e Farmacêutica Clínica - Hospitalar no Hospital dos Fornecedores de Cana/Piracicaba.

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